Ao pensar sobre Cananeia algumas imagens surgem instantaneamente: uma delas é aquela que mostra "cercas de taquara" fincadas nas margens do canal, beirando os manguezais.

Os cercos são armadilhas construídas para capturar peixes que vivem na região.

 

A região do Lagamar é banhada por água salobra, formada pela mistura de água salgada dos oceanos com água doce dos rios, que carrega nutrientes desde as encostas da Serra do Mar.

 

Essa característica permite o desenvolvimento de uma rica cadeia alimentar, desde o plâncton marinho até os predadores (boto e aves pescadoras).

Os botos costumam cercar cardumes de peixes nos canais, acompanhados por bandos de aves pescadoras, proporcionando um verdadeiro espetáculo. No momento em que atacam os peixes ocorre um frenesi alimentar: As as aves mergulham ao mesmo tempo em que os botos saltam e os peixes tornam-se presas desorientadas com o ataque.

 

Tamanha quantidade de alimento possibilita a existência de muitas espécies de peixes na região, desde pequenos Paratis até grandes Pescadas-amarelas. Entre essas duas, no tamanho mas não na quantidade, está a Tainha.

A Tainha, encontrada em todo o litoral sul e sudeste brasileiro, alimenta-se de plâncton e outros pequenos organismos que raspa do substrato. Ela costuma formar cardumes que procuram águas estuarinas (salobras) em busca de locais tranquilos e ricos em alimento para se reproduzir. O Lagamar oferece essas condições e é anualmente visitado por grandes cardumes da espécie que migram da região sul.

 

Europeus já relatavam a grande disponibilidade peixes no litoral do estado de SP no século XVI, mencionando que os índios utilizavam armadilhas para capturá-las.

"Gravuras que ilustram a publicação (STADEN, 1974) indicam que eles utilizavam também “tapagens” ou “cercadas”, barreiras de galhos fincados em locais rasos onde os peixes ficavam retidos com o refluxo da maré, recolhendo-os então com pequenas redes semelhantes a cestos." Extraído de ftp://ftp.sp.gov.br/ftppesca/serreltec_28.pdf

O fato é que hoje a Tainha ocupa importante papel na manutenção da cultura e tradição da pesca pelos caiçaras. Na região de Cananeia existem vários cercos (armadilhas de taquara) que auxiliam os pescadores na captura de grande quantidade de Tainhas.

 

O cerco é feito de taquaras trançadas, amarradas, de modo a formar malhas de tamanho regular que deixam passar peixes pequenos mas retém peixes maiores. O número de tranças do arame entre cada taquara determina a distância entre elas e, consequentemente, o tamanho do peixe que será aprisionado.

 

Seu funcionamento baseia-se no princípio de que os peixes nadam paralelamente à costa. Ao encontrar um obstáculo, a parede do cerco, tentam contorná-lo para seguir seu caminho e entram na parte fechada da armadilha (curral) onde ficam presos.

 

O pescador acompanha regularmente seu cerco e, de tempos em tempos, retira os peixes aprisionados com o auxilio de uma rede ou puçá. Peixes muito pequenos, ou de espécies sem interesse comercial, são devolvidos à liberdade. Por permanecer na água, mesmo na maré baixa, os peixes capturados continuam vivos até que o pescador os retire dali.

 

Por fim, não podemos deixar de falar da culinária...

Depois de sair do cerco, a tainha merece receber um tratamento especial, com caldo de limão, alho, ervas finas e muito calor!

O resultado é um irresistível prato típico da região: a Tainha na brasa!!!

 

Agradecimento especial ao Pedro Cardoso, proprietário do cerco, anfitrião, cozinheiro e dono da Pousada Cardoso. Sem sua ajuda essa matéria não teria sido realizada.

 

Referências

Abordagem histórica da pesca de tainha... - ftp://ftp.sp.gov.br/ftppesca/serreltec_28.pdf

Modalidades de pesca - http://marbrasil.org/home/detalhes/3156/Modalidades-de-Pesca

Curral - http://www.terradagente.com.br/NOT,0,0,287160,Curral.aspx